sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A aprendiz


Me senti no programa do Roberto Justus: você está demitida. Eu e mais tanta gente, que nem dá para contar nos dedos. A agência em que eu trabalhava perdeu uma conta importante, por isso as diversas demissões. No meio disso tudo, fica um vazio. Não é só a minha cadeira que vai ficar esperando por quem não vem, é muito mais do que isso. E hoje eu entendi. Você já foi demitido? Primeiro, vem o susto, o baque. Depois, os porquês. Por que eu? Por que aconteceu? A seguir, a pergunta clássica: e agora?!?


Passado o choque, os abraços. É interessante como a gente cria vínculos afetivos. Conheci muita gente boa, alguns viraram amigos, aquele tipo de gente que você quer carregar dentro das caixas de papelão, junto com tudo o que ficava nas gavetas. Eu gostava muito daquele lugar, para entrar lá fiz uma pequena revolução na minha vida. Já tinha o meu diploma querido, mas entrei na faculdade de novo por causa da vaga. Tive um chefe que, sei que sim, era o melhor do mundo. Paciente, querido, educado, gente boa. O tipo de gente que você sabe que tem um bom coração e é do bem só de olhar. Tive, também, o prazer de conviver com um Diretor de Criação que é o cara que eu quero ser quando crescer. Inteligente, espirituoso, honesto, do caralho. Tive o prazer de trabalhar com uma equipe unida na alegria e na tristeza, na saúde e na doença: Alessandra, Camila, Diego, Letícia, Aninha, Marcelo, Jorge, Camis, Hermano, Rafa, Fê, Gustavo, Jack, Adriano, Juliano, Renatinha, Rex, Zé. Tive o prazer de ter uma "pauteira" e amiga gente boa até não poder mais: Tais. Tive o prazer de conviver com gente amável e que desde o início cuidava de mim: Verônica querida. Tive o prazer de aprender que atendimento e criação podem ser amigos, sim: né, Bárbara?


Foi um dia tenso, nervoso, com direito a lágrima, dúvida e seus eteceteras. Aquele dia em que você precisa de conforto, só para tentar enganar o vazio. Só para despistar aquela solidão triste que bate quando as coisas dão errado - ou te pegam de surpresa. Um dia que já tinha começado apertado dentro da calça: às vezes a vida aperta tanto que a gente mal pode respirar, mas é preciso olhar pra frente e agir. Um dia que já tinha amanhecido pensativo, analisando o que fazer dali para a frente. Um dia em que você quer um colo, mais nada. Porque de vez em quando tudo que a gente precisa é isso, se cercar de carinho e nada mais. Sem palavras, só presença física.


Nem sempre as pessoas estão na mesma sintonia que a gente, e isso é natural. Tão natural quanto clarear e escurecer o dia. Às vezes, um está cansado e o outro agitado. Em outras, um está feliz e o outro triste. Só penso assim: é sempre bom se colocar no lugar de. Não peço que ninguém divida a infelicidade comigo nem que fique choramingando tentando repartir algum desgosto. Não é preciso repartir a tristeza, só tentar amenizá-la. Dar um calmante, uma dose de alguma coisa e ponto. Em momentos difíceis, é necessário entender o nervosismo, relevar o que é dito e compreender que a pessoa está diante de um desmoronamento.


Hoje eu fiquei duplamente triste. Por ter saído de um lugar que eu gostava, por não trabalhar mais com uma conta que eu me sentia amiga. E por não ter sido entendida. Mas não tem problema: hoje eu enfio a minha mágoa numa sacola branca e vermelha e amanhã eu levanto a cabeça para a vida. Ela continua bonita apesar de, eu sei.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Desvendada


Tem gente que se esconde atrás de um sobrenome, gostam de prêmios e fama. Alguns precisam de um rolex, o carro do ano e um duplex. Manolo nos pés, bolsa de grife nos ombros e o carão de quem chegou no lugar onde queria. Eu dispenso tudo isso, menos as mágicas palavrinhas de Cazuza: "algum trocado pra dar garantia".


Já faz tempo que descobri que ninguém vive só de amor. Uma hora a barriga ronca, é sempre bom ter um dinheirinho. Um amor e uma cabana? Acho lindo, desde que a cabana seja mega confortável, tenha TV a cabo, internet, ar condicionado, travesseiros de pena e, lógico, desde que o celular funcione. Não que eu seja uma tarada por telefone, mas nunca se sabe quando será necessário chamar o 911. Por isso, algum trocado é sempre importante.


O que é importante não é fundamental, que fique claro. A vida, pra mim, vai além de nome no jornal, desfile de modelitos, sorriso estampado em revista, Ilha de Caras, puxação de saco e babação de ovo. Eu preciso viver com gosto. Pra mim, a vida precisa ter cheiro, som, sabor. Nada sem sal (mesmo porque minhas papilas gustativas imploram por sabores: deve ser por isso que, vezenquando, sou salgada demais, picante, tão doce que enjoo. Às vezes eu peso a mão no tempero ou no Sazón). Nada que não perfume o ambiente. Nada sem flor. Adoro preto e branco, mas preciso de uma cor, nem que seja nas unhas. Não vivo sem perfume. E preciso do gosto pelas pequenas e quase inocentes alegrias diárias.


Ah, eu insisto tanto nisso! Não sei como alguém consegue fechar a janela sem observar os tons do céu. Eu adoro quando é fim de tarde e as nuvens ficam meio rosadas, acho lindo. Me dá uma paz grande, daquelas que chegam metendo o pé na porta do coração, sem bater nem nada. A paz chega e se instala como se fosse de casa há tempos. E a chuva, tem coisa mais linda? Os pingos dançando, os raios iluminando a vida, os trovões lembrando que o tempo passa sem a gente perceber. É aí que eu vejo claramente: tem gente que desaprendeu a enxergar.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Acomodando o pensamento



Às vezes eu não entendo. Não é por falta de esforço, juro. Se nem eu me entendo, como você vai conseguir? Olha, sei que sou mimada, um pouco inconstante, intempestiva, por muitas vezes vulnerável e não sei lidar com um punhado de coisas. Mas fico insatisfeita com as não tentativas. Se acomodar, pra quê?

Sinto dentro de mim uma explosão. De tudo, principalmente de emoções. Elas chegam impiedosas, feito rajada forte de vento. Quase me derrubam, tento me segurar. Na verdade, tento segurar tudo porque quero tudo pra mim. Tenho um lado bem mulherzinha que precisa precisar, é por isso que tô sempre buscando algo. Mas isso não é do ser humano, Freud? O ser humano não está sempre insatisfeito, Jung? Chega de teorias junguianas e freudianas, isso pira a cabeça de qualquer um. Talvez eu tenha lido demais, não que eu seja melhor que os outros, mas os que não têm tantas aspirações, os que não conhecem tanto da natureza humana se contentam com uma vida quase normal. Por um lado, viver na ignorância dá um certo ar de felicidade.

Acho difícil falar, por isso escrevo. Não que eu não tenha tentado, Deus sabe que sim. Olha, tô meio em crise. Com tudo, é que eu tô conhecendo mais as pessoas e o mundo e as coisas todas e isso está me assustando tremendamente. Talvez você já tenha visto como são as pessoas e o mundo e as coisas todas há mais tempo e talvez, talvez mesmo, esse meu jeito não combine com o seu. Eu e meu pensamento que não cala. Eu e meu coração que vive dando cambalhotas. Eu e meu livro de conto de fadas embaixo do braço. Eu, sem nada. Sei lá, talvez isso irrite você. Não é todo mundo que quer conviver com um Peter Pan travestido de Rapunzel que está vendo como as coisas são depois de quase trinta anos. Só queria um pouco de compreensão: o mundo está me apresentando um festival de novidades. E eu, nisso tudo, me perco um pouco. Ao invés de me explicar que todo mundo que você conhece já passou por isso, podia só tentar entender. Não peço muito, me dê o que puder, da forma que conseguir. Eu aceito.

Fico triste ao constatar que as pessoas podem simplesmente se perder. Por quê? Por que não tentam? Por que vão perdendo a inocência e ingenuidade? Antes, viam tudo com olhos infantis, falavam o que dava na cabeça, abraçavam com força seus planos, viajavam em histórias tão puras. Antes, nada era mecânico nem ficava no piloto automático. Antes, não tinham medo do ridículo. Antes, tudo era motivo de comemoração. Antes, mais coisas eram valorizadas. Antes, pequenas coisas eram grandes eventos. Com o tempo, beijos são rápidos, o olho no olho vai saindo de cena, pensam e hesitam antes de pronunciar uma só palavra. Com o tempo, as músicas vão embora, o romance sai de fininho, o que foi tão bonito pega um lencinho e acena pela janela. Com o tempo, amizades podem ser esquecidas. Com o tempo, o amor por todo mundo pode ir ficando desbotado. Com o tempo, o cansaço pula no seu colo. Com o tempo, você pode acabar se sentindo sozinho no meio de uma multidão pulando no Carnaval. E você ali, vendo suor, alegria, confete e se perguntando: tudo isso pra quê?

Hoje cedo, carregando uma mala pela rua, pensei nisso tudo. Não sei o que pesava mais: se era a mala ou a realidade despenteada. Deu uma vontade louca de sair sem rumo, mas ao invés de correr eu caminhei devagar, pensando no que precisava ser feito. A mala pesava tanto que tive que parar um pouco, pra tomar um ar e ver a fisionomia das pessoas na rua. E me perguntei: será que elas não pensam o mesmo que eu? De repente, elas podem ter cansado de pensar e resolveram só viver. De bico fechado e sem questionamentos. Assim tudo fica mais fácil, não? É bem melhor do que embarcar numa trip complexa, profunda, que remexe em tudo e enlouquece.

Pouco a pouco, vejo que a vida não é bem como eu pensava. Nem tudo é o que parece, ilusão é só uma palavra bonita que se esconde atrás da realidade. Expectativas e idealizações nem deveriam ter nascido, não sei quem inventou tais palavras (e deu para elas algum significado). Mas eu não quero me tornar descrente, entende? Isso não faz parte de mim, essa não sou eu, não quero perder a minha originalidade. E se ela for errada? E se toda a minha essência for apenas uma coisa idiota insuportável de conviver?

Por tudo isso, faço perguntas matinais nascidas de um sonho. E posso até falar algumas coisas sem sentido. Mas são só perguntas, pra engatar uma conversa, pra manifestar e ouvir opinião. Não é pra escutar que eu nunca vou abandonar esse meu jeito ou que eu tenho mania de ver as coisas com olhos de princesa encantada. Eu não busco uma pessoa que está nos livros, quero alguém real. Mas o que eu quero, de verdade, é que o alguém real aceite a minha realidade. E ela é essa, se apresenta desse jeito. E não tem intervalos porque o meu coração nunca para.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Você se vende?


Quer saber de uma verdade? Eu não suporto gente feliz o tempo inteiro. Isso me cansa. Juro, chega a me dar uma dor terrível nas costas. Fora o embrulho no estômago e a reviravolta no cérebro. É que eu não acredito que uma pessoa normal pode ser sorridente e serelepe sempre. Todo mundo tem problemas, ora bolas. É claro que cada um lida de uma forma, mas não estampe um ar faceirinho na cara se você está completamente fodido.

Não há nada de errado em assumir a fodelança. A vida de ninguém é 100%. Não precisa enganar, vestir a roupa efusiva e fingir amar o mundo, os pássaros e os gatinhos perdidos na rua. Tem gente que mente. Vende uma Felicidade Miojo, aquela que fica pronta em três minutinhos. Acredito que a vida é feita de ciclos e em toda aquela babaquice clichê que um dia é da caça e o outro do caçador. Também acredito que quando tudo está bom, sempre tem algo para melhorar ou estragar, depende do nosso olhar.

Já me ferrei algumas vezes, assumi meus riscos e erros. E tudo bem. Isso mesmo: tudo b-e-m. Detesto humores suspeitos, gente que dá bom dia até para as paredes, que tem voz mansa e fala baixinho, com medo de acordar os vizinhos. Acho importante buscar o fundo da gente, por isso eu grito. E assumo numa boa que tenho todos os sentimentos do mundo: contraditórios e puros, contraditórios e sombrios. Sinto inveja, medo, horror e ciúme. Tenho meu lado egoísta que anda por aí arrastando correntes.

Não consigo fingir. Quem me conhece sabe. Fica escrito na minha testa, meu olho me entrega, minha voz toma as rédeas da situação e diz que não está gostando, minhas sardas mudam de cor. Posso ter em mim todos os defeitos do mundo, mas carrego uma franqueza sem limites, que seguidamente me deixa em saias justérrimas e me causam transtornos temporários. Franqueza que vive de mãos dadas com meus humores coloridos: azul, preto, branco, verde, rosa, lilás, nude (que é tendência).

Posso de vez em quando ser ranzinza. Mas ainda prefiro ser desse jeito do que me vender de uma forma bonita, pra todo mundo acreditar no que a imagem diz. Muita gente é assim: aos quatro ventos, diz uma coisa. Lá no fundo, é outra. Eu não sei me vender, só me dar. E essa, pra mim, é a melhor prova de que eu ainda (não) sei viver.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Quase uma smurf



Preciso diminuir a minha velocidade. Trocar de marcha e aprender a ir mais devagar. Ser menos, não correr tanto. Viver um pouco menos estressada. Deixar o meu volume mais baixo. Não falar em trabalho depois que chego em casa. Aprender a relaxar e não pensar em nada. Não ficar maquinando hoje o que preciso fazer na semana que vem. Ser menos, bem menos. Menos doida. Menos mimada. Menos braba. Menos doce. Menos ácida. Menos turrona. Menos difícil. Menos temperamental. Menos intensa. Menos sonhadora. Menos acumuladora de sentimentos. Menos cinderelesca.

Pode soar engraçado, logo eu, justo eu, falar isso. Eu, que sempre me orgulhei de me entregar tanto. Colocar tudo de mim nas coisas, sem a menor preocupação de sair viva ou com o joelho ralado. Eu, com meu exagero proposital, que gostava de levantar bandeiras de só-vive-quem-se-dá. Acho que ando cansada. E um pouco desacreditada no futuro.

Será que a vida pode ser mesmo um conto de fadas? Tenho que pensar menos nisso e viver mais a realidade que borra meu rímel todos os dias. É, a vida é assim. A gente vive em um mundo com gente suja e que fica espiando o momento certo de créu. Não, não é pra dançar o funk, é pra te jogar em um abismo. Sem a menor dó, sem a menor vergonha na cara. Eu, ordinária, ainda acredito que quem pisou na bola ainda tem salvação. Por que não dar mais uma chance? A pessoa fez maldade uma vez, ela pode se regenerar, pode ter sido apenas um deslize, certo? Errado! Ela faz de novo e de novo e de novo. Tenho que ter menos veia sadomasoquista.

Já pensou se nada for aquilo tudo? Não é pra somar tanto, é o que tenho me dito todas as manhãs antes de levantar. Diminui, diminui, baixa a bola, eu falo baixinho, bem baixinho no meu ouvido. Sussurro, com um pouco de tristeza, que tudo pode mudar em um passe de mágica. Pode dar tudo errado. Posso continuar trabalhando muito e ganhando pouco. O amor da minha vida pode ir e nunca mais voltar - ou então achar um outro alguém que não dê tanta dor de cabeça e não viva uma vida tão cinematográfica. Ou então encontrar uma européia que entenda de poesia, arte e dança moderna, que fale sobre coisas que eu não sei e de quebra seja linda, tipo capa de revista. Posso chegar aos 40 anos velha, feia, obesa, sem amor, sem filho, sem cachorro e sem teto. Meu Deus, só de pensar eu me arrepio. Mulher tem mania de inventar a própria vida. Eu invento e a minha é tão linda que dá um medo gigante ter um pedaço dela arrancado dos meus sonhos. Mas eu sigo, firme, um pouco menos confiante. Porque eu preciso ser menos.

E anota aí: preciso ver menos filmes de mulherzinha. Que mania essa, a gente vive achando que pelo menos uma vez vai ter um dia daqueles. Que é isso, minha gente? Por que tanta ilusão em um só corpo? Por que tanto desejo em uma só mente? Eu queria pelo menos um dia menos. Não, não é um dia a menos. Quero muitos dias a mais, se me for permitido. O que eu quero é um dia menos inteira. Porque nem sempre eu consigo viver com tudo o que existe em mim.