Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Na frente do quadro negro






Eu descobri que algumas coisas chegam com o tempo. O entendimento, por exemplo. É preciso se apaixonar muito para encontrar um amor. Muita gente consegue tirar a sorte grande e achar um amor fresquinho bem rápido. Pensando bem, isso acontece pouco. Não é para muitos não. O mais comum é você cair do cavalo, da égua ou do jumento muitas vezes, aí sim o amor chega abraçando a vida. E limpando os machucados que, por ventura, surgiram nas muitas quedas.

Me apaixonei muitas vezes. A primeira grande vez foi ainda menina, bem nova. O moço era um menino também e, suponho eu (juro que prefiro manter a imagem doce que criei), se apaixonou por mim. Vivemos um clima de paixão aos seis anos de idade. Então eu me mudei para Porto Alegre, nos reencontramos bem depois. O mocinho virou um moção, com quase 2 metros de altura. Rimos da paixão infantil. Nenhuma saudade ou mágoa, ainda bem. Algum tempo depois, já quase adolescente, me apaixonei pelo professor de matemática. Ele era lindo, tinha os olhos verdes, usava óculos, era casado, tinha três filhos e era evangélico. Sem chance. Mas eu adorava as aulas dele, passava o tempo inteiro observando o que ele fazia. Prestar atenção que é bom, nada. Sempre fui péssima em matemática, mas não o culpo, minha falta de talento para contas e equações vem desde a época em que eu me encontrava na barriga da minha mãe. Fui apaixonada pelos meninos mais velhos da escola, nenhum deles dava bola pra mim. Mas eu ia aos jogos de futebol, torcia, alcançava água e toalha. Uma legítima serviçal futebolística. Já contei que também fui apaixonada pelo professor de inglês? Ele era gay, bem gay. Mas tinha um charme e um bom gosto pra se vestir que só vendo! O primo de uma amiga já foi alvo das minhas paixões. O melhor amigo da minha prima também, mas não deu muito certo. Morávamos longe, ele tinha uma ex-namorada que passou a ser atual-namorada e eu dancei. Pensando melhor, dancei muitas vezes. Já me apaixonei pelos meninos que me tiravam pra dançar nas Reuniões Dançantes. Ao som de Roxette, dançava a muitos metros de distância, cuidando para não arrotar sem querer. É que na minha época a gente só tomava Guaraná, entende? Com muita sorte era morna, porque o normal era quente. Eu adorava a "Listen to your heart". Sempre ouvi meu coração. Adorava muito "It must have been love". Achei que tudo era amor. Coisa de criança, adolescente boba, quase adulta maluca.

A paixão é saudável e exercita o coração. Ele corre, puxa ferro, faz ioga, pilates e spinning. Sua, mas fica em forma. É com a paixão que aprendemos frases como "nunca quis tanto alguém assim", "minha vida só faz sentido com ele" e "preciso tanto de você". A paixão é um extremo, tira do foco. A gente age por impulso. O desejo salta pela boca, a falta berra pelos olhos. A paixão pode enlouquecer. Nunca me reconheci apaixonada. Saio do prumo, faço maluquices, crio letras de música, corro o mundo, perco o sono, me falta a sanidade. É bom cometer loucuras. Faz bem pirar um pouco. E a paixão promove as maiores e mais agitadas pirações. Elas rendem história, uma certa nostalgia das irresponsabilidades e até mesmo da ingenuidade. Porque a paixão, depois que passa, nos esfrega na cara o quanto fomos ingênuos, o quanto acreditamos em uma coisa que não fazia o menor sentido. A paixão precisa ser vivida até o fim. Ela fere, mas a gente aguenta até depois do limite. Porque a paixão aumenta o nosso senso de limite: pensamos que não iremos conseguir quando, de repente, nos superamos.

O amor vem com a maturidade emocional. É preciso estar preparado para a chegada dele, por isso eu disse que é preciso se apaixonar muito para amar. O amor é bem diferente. Ele não causa transtornos psicológicos. A paixão é a escola para o amor. Mas com o amor vivemos estudando. E essa é a grande graça da vida: nunca deixarmos de aprender.



Sobre o envio de originais e/ou textos

Muita gente manda textos e originais para avaliação, crítica, etc. A partir de agora, maiores informações através do e-mail: umpoucodoresto@gmail.com.

Sobre a promoção do dia do amigo

Pessoal,
A promoção é válida até domingo, enviem suas histórias!
Mandem para o meu e-mail, em até 5 linhas, uma história bonita de amizade.
Vale mandar fotos, desenhos, músicas, o que quiserem!
Tem um monte de gente me mandando coisas legais, tô amando!
Participem, é até o dia 19 de julho.
No dia 20 eu divulgo o vencedor.
Respostas no e-mail clariscorrea@gmail.com
A melhor resposta leva o livro "Terceira Sede", do Fabrício Carpinejar!

Beijos e boa sorte!

Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Fotos

Um registro:
Todas as fotos que eu uso aqui no blog, para ilustrar textos, são do Google ("Imagens"). As outras têm os devidos créditos.

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Não tem preço





Algumas pessoas valem o mundo. Com tudo, tudinho dentro. É que dentro do mundo tem um universo. Damos muitos nomes tais como sentimento, emoção, sensação, etc. A mania de nomear vem da estranheza e curiosidade humana em catalogar coisas. Tudo precisa ter nome e significado. Não entendo, basta sentir. Sentir, sentir e sentir. E quando o sentir estiver indo embora, sinta de novo. Infelizmente, para alguns o importante é batizar. Antes mesmo de uma coisa surgir, ploft, nome nela.
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Eu dizia que algumas pessoas valem o mundo. Falo de mim, do meu mundo, estranho mundo. Meu universo sem nome nem significado. Sou uma pessoa muito cheia de mim. Sinto que tenho muito não-dito, guardado, muito a ser colocado pra fora. Desde pequena me sinto assim, com o mundo no peito, com um universo nas mãos. Demorei pra entender o que fazer, como agir, de que maneira extravasar a enxurrada de eus. Nem sempre acerto, mas tento. Um mar de complexidade vive em mim, aprendo todos os dias a entender um pouco mais do meu próprio funcionamento. Chega uma hora, não me pergunte qual, em que você perde o medo. Não falo do medo de abrir os olhos pro mundo, falo do medo de abrir os olhos pra si mesmo. É difícil nos enxergar. É difícil me enxergar.
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O grande problema é a perfeição. Ainda que veladamente, é o que buscamos. Isso cria barreiras, impõe obstáculos que muitas vezes só fazem mal. É bom ter ambição, vontade, gana. Mas é preciso entender que muitas coisas que estão ali simplesmente ficarão ali. Não adianta chorar, fazer beicinho, cara feia e bater o pé. Entenda, eu digo isso pra mim todos os dias, certas coisas farão parte de mim e de você. Evoluir é essencial, mas não existe uma passagem secreta ou um trampolim que leve até a Dona Perfeição. Temos, teremos defeitos. E viverei, viveremos com eles. Ciente disso, sigo afirmando que algumas pessoas valem o mundo. Mesmo quando ele está encardido, alcoolizado, com dor de barriga e sem lavar as partes baixas há mais de uma semana.
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Penso assim: a vida é feita de gente boa e ruim. Alguns dias são bons e outros ruins. Existem sentimentos bons e ruins. Tudo é na base do bom e do ruim. O bem e o mal. A gente aprende isso desde cedo, tem o mocinho e o bandido. O ladrão e a polícia. E algumas pessoas valem o ruim, o estragado, o sem gosto. De vez em quando é pior não ter gosto de nada do que ter um gosto azedo. Algumas pessoas valem isso. Acho que esse é o ponto máximo do amor máximo. Não que ele precise ser medido ou explicado. O amor dispensa maiores definições. Ele se auto-explica (não sei se leva hífen). Só penso que quando a gente tem o coração cheio desse sentimento, tudo fica claro. E a gente não precisa ter medo de cruzar com alguém ruim no caminho. Elas nos fortalecem, ensinam. Algumas delas, inclusive, até valem o mundo (ainda que por um curto tempo). Quem nunca se decepcionou? Quem nunca pensou assim fulana-é-minha-melhor-amiga-beltrano-é-o-cara-dos-meus-sonhos? Nessa hora, eles valem o mundo. Depois, tudo muda, valem nada. O que importa é o momento em que a pessoa efetivamente valeu o seu mundo.
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Ouço gente amargurada dizendo que a fulana era uma cobra, não valia nada. Eu entendo, mágoa de amiga (o) arrasa a alma. Só que ela passa. A gente não pode se prender em rancores. É bom lembrar das partes boas, do que deu certo. Porque alguma coisa sempre dá certo, a gente sabe a hora exata em que está funcionando. É que nem um amor. A gente sabe quando morre, quando para de funcionar, quando o coração para de bater. Não queremos admitir, mas sabemos. No fundo sempre saberemos. Muitos amores deram certo na sua vida, não pense que eles foram ruins só porque tiveram fim. Deu certo naqueles sete meses em que vocês namoraram. Deu certo nos quinze anos em que foram casados. Deu certo até a hora em que parou de dar. E tomara, tomara mesmo, que naqueles meses e anos e minutos a pessoa tenha valido o seu mundo.
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PS.: Agradeço aos que valem o meu mundo. Gente louca de especial, leitores queridos que são incansáveis no carinho, nas palavras, no tom. Muito obrigada! Aproveito pra mandar um beijo pro Diego Muzitano, que me alegrou esses dias com um e-mail delicadíssimo. Diego, se cada pessoa no mundo tivesse 1/3 da tua delicadeza, sei lá, acho que seria mais simples viver. Um beijo pra cada um de vocês, que me escrevem, deixam recados queridos, são amorosos e mandam uma energia boa! Obrigada, de coração, gente.